terça-feira, 20 de setembro de 2011

O amor liberta


               Garoto eu te avisei que a jornada seria difícil.
                Você me olhou com olhar apaixonado e me disse: tudo bem.
                Ainda assim eu te alertei, pedi que pensasse bem.
                Eu não sou o tipo romântico sem causa. Sou a favor da razão que não anda do lado do amor.
                Minha jornada é solitária e eu te avisei. Você, nas nuances maravilhosas do amor, não quis me escutar. Isso, pode ter certeza, não significa que meu coração é pedra, apenas se restringe a emoções únicas, individuais.
                Eu queria que você entendesse que eu te avisei.
                Onde cabe a minha culpa carrego sem medo. Eu sei, seu coração está ferido.
                Eu sei, minha razão machuca muito. Mas eu te avisei.
                O desafio de me amar é intenso e requer sangue frio e você simplesmente ignorou se dizendo tão superior nas coisas que vão ao coração.
                Perdoe-me se não fui clara ao ponto em que você necessitava. Perdoe-me se em meias palavras deixei entender que tudo é para sempre. Perdoe-me se sou fria demais.
                A caminhada da vida me deixou marcas insuportáveis, me fechou a sete chaves e eu talvez não soube lhe explicar isso tão bem.
                Eu sei que no calor de certas emoções não conseguimos controlar certas palavras, porem não posso ficar refém delas.
                Liberte-me amor, solte-me por ai. Deixe-me livre para voar e assim me terá mais presente do que no enfado do dia a dia.
                O pássaro quando se prende, canta um canto que aos admiradores do melancólico soa divino, porém é um canto de dor, de lamento. Quando alguém o liberta de coração aberto, ele entende e quando pode, volta e lhe canta o mais lindo canto de amor, de agradecimento.
                Gostaria de não ver a tristeza em seu olhar ao me ver partir, pois vou só ali e logo voltarei.
                Cantarei com meu sorriso o mais lindo canto de romance como se a partida me curasse do mal da indiferença.
                Mas ver seu olhar de dor, sua magoa por não entender e suas atitudes de autocomiseração me matam a cada instante.
                Solte-me, por favor.
                Liberte-me, por favor.
                Um dia quem sabe entenda que amor é para muitos, porem a razão é para poucos e sem ela não se vive dignamente.

A tolice chamada amor


            O que é o amor?
            Para mim o amor seria uma demagogia para deixar as relações mais românticas.
            O marido ao se casar, jura para a esposa diante da igreja que a amará para sempre. Vivem felizes por bons sete anos. Tudo corre bem como o planejado no juramento.
            Um belo dia de primavera, ele entra em uma cafeteria, pede um capuccino e senta em uma mesa no canto. Nesse momento entra uma linda mulher, daquelas que chamam a atenção de qualquer um entra e ele fica hipnotizado.
            Sem esperar, como não haviam outras mesas com cadeiras disponíveis, ela pergunta se poderia sentar junto com ele. Ele gentil como era, permite e começam a conversar. Ele se apaixona por aquela desconhecida. Ela também se apaixona por ele e resolvem que querem ficar juntos.
            Passado alguns dias ele chega para a sua mulher e diz: “quero o divórcio!”. Ela chocada e inocente lhe pergunta: “Onde fica o te amarei para sempre?”.
            Tudo é um teatro aonde o enredo se baseia no que é conveniente. Amar é um ato bem mais simples do que desenham. Por vezes as pessoas se amarram em promessa que não podem cumprir no que se trata de amor. Quem já não disse a famosa frase: “Te amarei para sempre”? Todos em algum momento da vida. Tolice. O complicado é depois desfazer isso.
            A Bíblia nos conta que o único mandamento que Jesus nos deixou foi: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”. Algumas pessoas se prendem a isso como algo indispensável e se tornam frustradas, pois a meu ver é impossível amar igual a alguém que tinha amor infinito. Claro que se isso acontecesse com todos o mundo seria magnífico. As igrejas montam suas bases nisso. No mundo não existe amor. E fazem seus fieis se anularem na busca do amor perfeito, mas se esquecem de contar que é impossível amar como alguém que tem um amor infinito e que o salvador do mundo não é a religião. Aliás o mundo não precisa de salvação. Precisa de mais coerência.
            A música de Renato Russo diz: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanha, porque se você parar para pensar na verdade não há.”. Que frase linda e por vezes mal interpretada! Entendo essa frase como sendo um alerta sobre que tudo na vida passa, nossas convicções mudam, nossas vontades mudam, nossos ideais podem também mudar, não existe uma verdade única. Existem várias verdades que formam cada pessoa. A pessoa é o que ela consegue fazer com integridade, sem se perder no caminho. Amar nesta frase seria entender que não somos únicos, não somos donos da verdade e que amar nada mais é do que aceitar que o outro também tem seu espaço.
            Amor é tema de grandes obras artísticas. Amor é algo defendido como prioridade máxima para a pessoa ser entendida como alguém bom. Amor é o que deixa a chatice das relações amorosas mais bonitinha.
            Não sou idiota em dizer que amor não é bom. Porem sou categórica em dizer que amor que conhecemos é a maior fantasia que o ser humano já soube desenvolver.
            Aceitar o outro como parte integrante no quadro da necessidade humana, como peça importante na engrenagem da sociedade para mim é algo muito mais importante.  

sábado, 7 de maio de 2011

Inocência


            Era comemoração do fim de ano, todos estavam na casa da avó.
            Augustina, Tiago, Fernando e Valentina corriam para lá e para cá. As crianças sempre gostam muito de festa. Marcos e Vanda são pais de Valentina e muito ricos. Sempre nessas festividades era um alvoroço por conta dos presentes que eles levavam. Esse não era um ano diferente.
            Um pouco antes da meia noite eles começam a distribuir os presentes, as crianças se agitam. Vanda começa então por Augustina:
            _ Augustina minha querida, tome aqui o seu presente.
            Ela mais do que depressa se apossa daquele pacote tão desejado. Abre.
            _ Que linda tia! Muito obrigada! _ Era uma Barbie legitima, num lindo vestidinho de festa e sorridente.  
            _ Tiago agora é sua vez. A madrinha comprou uma coisa que sei que você gostará muito.
            Tiago pega o presente e o desembrulha sem muito cuidado, ele estava ansioso.            Sempre ganhava bons presentes dos seus padrinhos. Acaba de abrir o pacote e com isso também abre um grande sorriso.
            _ Dinda que coisa mais linda. Amei. Muito obrigada! _ Era um notebook de ultima geração. Coisa que ele estava sonhando e querendo há muito tempo.
            Valentina como era filha deles já havia ganhado seu presente. Uma viagem a Disney.
            Chega a vez de Fernando. Ele era um menino tímido, gordinho. Filho de mãe separada que era sempre considerada um estorvo por conta de sua situação. Dos primos era o mais isolado, não porque quisesse mas porque o colocavam naquela situação. O que não sabiam era que dentro dele batia um bom coração. Capaz de não perceber a tamanha crueldade.
            Tia Vanda então o chama.
            _ Fernando agora é sua vez. _ Grita ela.
            Ele vem correndo. Vanda então tira um pacotinho de dentro da sacola e o entrega. Ele muito curioso se coloca a abrir o pacote desesperadamente. Que surpresa!
            Fernando abre um sorriso e diz:
            _ Muito obrigado tia!
            E sai feliz. Ele ganhara uma lanterna.
            Fernando não percebeu a gravidade e a ironia daquilo. Com o sorriso de uma criança pensava: “Que maravilha! Agora vou poder chamar o Guto para caçar rãs à noite com essa lanterna. Vai ser demais!”

Viagem


            Desconexo esse paralelo de sensações... nem ligo se soa bizarro.
            Gosto do bizarro, nada extremo, somente bizarro!
            A faca que nos corta as vaidades mostra que o estranho tem mais valor.
            A sede de outrora pedia que as tradições se mantivessem, hoje a busca é pelo novo, pelo diferente e estranho. Bizarro.
            Padeço por essas percepções...
            A loucura reside bem ao lado do meu calabouço. Bate nas paredes imaginárias e me chama. Um chamado que por me intrigar me arrasta.
            Pouco me interessa qual é a percepção alheia... Essas entrelinhas não são para serem entendidas, são marcas do que foi vivido.
            Ah correntes da subversão!... Chama-me pelo nome para a destruição... Vá para longe do meu coração. Quero pureza mesmo que bizarra, quero loucura, confusão!
            Estreita-me o caminho mesmo que eu não possa caminhar. Se existe o sobrenatural ou uma força maior nesse momento suplico: salva-me! Liberte-me das garras da liberdade.
            Obsceno, eu sei. Nessa devastadora consideração ao meu íntimo me jogo. Braços abertos na ingratidão ao bem. Prefiro o doente, o profano e talvez o louco. Quem saber assim não necessite de justificativas para existir.
            Entenda, por favor, entenda. Não quero parecer leviana, mas o leviano fala por mim como uma incorporação do impossível de se compreender. Sim, existe lucidez no que digo, basta abrir os olhos do íntimo para entender. Se tudo que digo lhe parece idiota, então idiota me intitulo, pois aos loucos não se contraria, apenas se finge existir um mundo imaginário.
            Bizarro... Ah bizarro! Resida em mim... Prometo-lhe morada eterna!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Admirável mundo infantil

            Era uma tarde quente em uma cidade quente.
            Parecia que as roupas nunca mais se desgrudariam do corpo, pois o suor escoria. Dentro do carro estávamos eu, minha mãe e a menina que sempre será minha filha. Ela, um pouco gordinha, sentia demais o calor e como não se podia aliviar, naquele dia ainda trazia contigo a praga chamada piolho. Coisa de criança, ela tinha seis anos naquela época.
            E o calor nos consumia. De repente uma vozinha suave diz algo chocante no banco de trás:
            _ Nossa esse calor ta demais Cris. Deus que é esperto.
            Crédula que era demais naquela época e chocada questionei:
            _ Como assim?
            Como se aquilo fosse uma simples frase ingênua de criança ela se explicou:
            _ Ele ta lá no céu, bem no fresquinho, enquanto estamos aqui cozinhando.
            Naquele dia aquilo me pareceu apenas mais uma coisa que criança diz de engraçado. Porém o olhar infantil pode dizer muita coisa.
            Aquela menina que hoje esta no processo de transformação da puberdade, talvez nem se lembre que me deixou uma sementinha de questionamento.
            Seria Deus esperto por nos jogar aqui nessa selva, como animais selvagens, padecendo dores humanas, enquanto fica lá de cima comandando tudo como o maioral?
            Eu aprendi na minha infância que Deus é mau. Você não pode fazer nada que vá contra a lei de sei lá quem (Dizem que é dele mesmo) que ele irá te castigar eternamente. E eu na ingenuidade infantil tinha medo do ditador que ficava lá em cima.
            Lembro-me nesse momento do fato que me afastou totalmente da religião como é vista pelos evangélicos.
            Aos onze anos eu tinha o cabelo completamente despontado e um pouco abaixo da minha cintura. Era diferente das minhas amiguinhas. Os meninos me achavam feia e eu não queria aquilo. Nessa idade começamos a entrar no mundo da concorrência feminina. Num dia, me sentindo extremamente amargurada com aquilo, peguei a tesoura da minha mãe e cortei um pedaço do cabelo. Por saber que Deus era ruim e iria me castigar fiquei certa que haveria uma dolorosa punição. Mas para mim o que mais me preocupava era a atitude dos meus pais, eles reprovavam aquilo de forma veemente. Mas eu estava agora igual as outras meninas, me sentia melhor. Penteei os cabelos e saí com eles soltos. Não me lembro qual foi a reação da minha mãe. Só me lembro que ela contou ao meu pai e naquela noite sentados a mesa ela falava coisas que eu não entendia. Meu pai sim, me deixou uma marca profunda. Sentado, sem reação. A única coisa que se via eram suas lágrimas que não paravam de escorrer.
            Aquilo me machucou. Eu não sabia que algo que me pertencia pudesse fazer tanta diferença para ele ao ponto de fazê-lo sofrer daquela forma.
             Como eu poderia entender aos onze anos? Enchi-me de revolta e disse que aquilo era tolice. Meu pai como se não estivesse satisfeito em me fazer sofrer com suas lágrimas me levou diante do conselho de doze pastores, pedindo a eles que me excluíssem da comunidade por conta daqueles fios de cabelos que com certeza voltariam a crescer.
            Daquele momento em diante eu soube que não queria acreditar naquele Deus tão mau, tão cruel.  
            Hoje entendo que nossas atitudes nos adultos causam por vezes sensações que eles não sabem lidar. Mesmo sabendo que não é o correto, eles nos criam como posses.
            Pena meus pais se venderem ao demônio do medo. Pena meus pais temerem um ditador que não existe.
            Costumo dizer que existem várias formas de se dizer a mesma coisa. Pode se dizer que alguém é desprezível e a mesma te amar eternamente ou te odiar na mesma intensidade. Tenho certeza que em sua ignorância meus pais queriam, e ainda querem que eu me renda ao ditador também, pois disseram a eles que é bom, mas o argumento não foi correto.
            Pais, deixo aqui um pedido amoroso. Deixem seus filhos voarem alto em seus devaneios. No mundo das crianças existem regras que não são para serem entendidas por nós.
            Certa vez, lendo Rubem Alves, entendi isso perfeitamente.
            Ele estava sendo entrevistado por uma jornalista e ela lhe perguntou o seguinte: “Que conselho o senhor daria aos pais?” E a resposta dele foi sublime: “Nenhum. Não dou conselhos. Apenas diria: A infância é muito curta. Muito mais cedo do que se imagina os filhos crescerão e baterão asas. Já não nos darão ouvidos. Já não serão nossos. No curto tempo da infância há apenas uma coisa a ser feita: viver com eles, viver gostoso com eles... ”
            Crianças se espelham em nós. Nossos exemplos ruins podem por vezes desmoronar as fortalezas dos sonhos infantis. Alguns em lamentáveis poucas vezes conseguem contornar, mas esperar que eles consigam isso é bem mais duro do que simplesmente incentivar algo que pode ser bom mesmo que momentâneo.
            Eu acredito em Deus sim. Acredito no Deus generoso que me deu o livre arbítrio e a consciência para discernir o que é realmente errado.


  

O que pensa o assassino?

            O que pensa o assassino?
            Quando desfere o golpe da dor fatal em alguém, o que pensa?
            O assassino merece perdão? Ou será que isso é paga de vida de outrora.
            Às vezes penso que o assassino remói por dentro as dores de cada vida tirada. Porque tirá-las então? Ah, pergunta melhor: o assassino sente? Tem sentimentos? Se os tem, porque mata?
            Qual o poder de um humano sobre a vida alheia?
            Me perguntaram uma vez qual a minha relação com Deus. Deus é Deus e eu sou eu. Que resposta vazia pode ter parecido ao questionador. Por vezes imaginei Deus em um teatro de marionetes, nos conduzindo conforme ele achasse melhor para o espetáculo. Então onde caberia o livre arbítrio se somos regidos como marionetes num concerto de um maestro onipotente, onipresente e onisciente?
            Hoje penso que Deus é nossa voz interior. Sempre disse que pecado é tudo aquilo que você, pelo senso real, se condena. Então minha relação com Deus é de um mero ouvir do meu interior.
            E será que o assassino tem a voz interior o auxiliando? Seria um momento de surto em que bate a vontade de ser sua própria voz interior? Como eu defensora que sou da vida, poderia sequer cogitar entender a mente do assassino?
            Sim, para mim o mundo de um assassino é um mar de interrogações.
            Não ouso encontrar explicação, apenas me entristeço ao saber que tirando uma vida ele aos poucos mata a sua própria e, na certeza que tudo se paga mesmo que os olhos ou ouvidos jamais possam saber, conservo uma piedade mórbida da sofreguidão do assassino.